1994 - 2024

FONSEAS +30: História, Memória e Trajetória

Thauan Pastrello

Na 6a edição da Revista Gestão Social do FONSEAS, em comemoração aos 30 anos do Fórum Nacional de Secretários de Estado de Assistência Social (FONSEAS) , convidamos você para uma jornada de reflexão sobre a história, memória e trajetória da assistência social no Brasil. Este projeto especial reúne depoimentos fundamentais de protagonistas que participaram da construção da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) que chega aos seus 20 anos em 2024, abordando temas que marcaram e continuam a construir a assistência social no país1.

Destaques Temáticos

Esta edição histórica apresenta uma análise crítica dos desafios e conquistas dos últimos 30 anos, com destaque especial para os 20 anos da PNAS . As entrevistas com referências renomadas, como Ivanete Boschetti, Aldaiza Sposati e Potyara Pereira entre outras que trazem à tona reflexões profundas sobre as transformações políticas, sociais e teóricas que impactaram a assistência social.

No site do FONSEAS você encontrará esse registro na íntegra junto a uma análise especial. Destacamos pontos relevantes das falas de Potyara Pereira, Ivanete Boschetti e Aldaiza Sposati que adensam o debate, apresentam divergências e consolidam o pensamento desta época marcando assim os últimos 20 anos do SUAS e, por sua vez, apontando projeções que se encontram em plena maturação na realidade brasileira atual2.

Neste momento decisivo para a política de assistência social no Brasil, as vozes de Potyara Pereira, Ivanete Boschetti e Aldaiza Sposati nos oferecem uma visão profunda e crítica sobre os avanços e retrocessos atravessados ao longo destes anos. Em suas entrevistas, elas abordam desde o contexto histórico e as conquistas civilizatórias até os desafios impostos pelas forças conservadoras e os impactos da atual conjuntura política. A seguir, destacamos alguns trechos inspiradores. Para acessar a entrevista completa, visite o site.

1 A formulação da proposta de entrevista integra o projeto Fonseas +30: História, Memória e Trajetória elaborado pela assessoria técnica do FONSEAS pelo pesquisador em nivel de doutorado em Serviço Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Contou ainda com a aprovação da Câmara de Assessoramento Técnico do FONSEAS e teve contribuições diretas de Tatiane Magalhães (SP) e Mirela Alvarenga (ES).

2 Destacamos apenas as contribuições das convidadas citadas nesta versão impressa em razão do cronograma de editoração e expedição da revista. As demais contribuições detém a mesma relevância e podem ser apreciadas integralmente no site do FONSEAS.

Potyara Pereira reflete sobre as conquistas civilizatórias no campo social em um contexto global e nacional adverso:

“Esse conjunto de inéditas conquistas civilizatórias ocorreu em uma conjuntura nacional e internacional avessa à sua sustentação e hostil à sua realização.” — Potyara Pereira

Ela aponta para um cenário em que valores sociais e solidários foram, aos poucos, substituídos por ideais de competitividade e privatização:

“A entrevista também versa sobre o contexto histórico, então dominante, que já renegava, globalmente, tudo o que possuísse índole social, pública, universal e solidária, para prestigiar: o individualismo possessivo, a privatização mercantil, a meritocracia, a competitividade e a ética hedonista.” — Potyara Pereira

Ivanete Boschetti compartilha sua atenção diante do avanço das tendências conservadoras, alertando para o risco de as políticas sociais se tornarem espaços de conformidade, ao invés de resistência:

“Acredito que as tendências conservadoras tendem a piorar, especialmente se a política ficar subsumida às institucionalidades em que predominam as forças de direita e extrema-direita.” — Ivanete Boschetti

Para ela, as políticas sociais devem alimentar o espírito crítico e estimular a consciência de classe, servindo como um espaço de contestação e resistência ao conservadorismo:

“Qualquer mudança de qualidade nas políticas sociais pressupõe torná-las capazes de satisfazer as necessidades sociais, alimentar o espírito crítico, instigar o acúmulo de consciência de classe, ser um espaço de contestação do conservadorismo e atuar na organização de bases sociais capazes de sair às ruas contra os retrocessos e em defesa da ampliação dos direitos.” — Ivanete Boschetti

Aldaiza Sposati analisa a trajetória da Política Nacional de Assistência Social (PNAS), enfatizando o declínio que se intensificou após 2016:

“A primeira década da PNAS teve um percurso de muita força, onde a assistência social fazia parte de uma estratégia de governo, com algumas garantias intrínsecas, inclusive orçamentárias.” — Aldaiza Sposati

Segundo Sposati, a assistência social, que antes era tratada como política pública estatal, tem sido cada vez mais marginalizada e reconduzida ao campo das ações de combate à pobreza:

“A partir de 2016, o ingresso na segunda e terceira década é um ingresso de declínio. Primeiro, o trato da assistência social como política pública estatal foi sendo afastado dessa concretização para chegar ao que já foi antigamente: uma ação social ligada à ideia de combate à pobreza.” — Aldaiza Sposati

Essas reflexões nos convidam a pensar criticamente sobre os rumos da assistência social e os desafios para que essa política continue cumprindo seu papel emancipatório. Não deixe

de conferir a entrevista completa no site para se aprofundar nas análises dessas especialistas.

Participação dos Sujeitos e o Exercicio do Controle Social

Potyara Pereira reflete sobre como os direitos se transformaram em “entitlements” no contexto neoliberal, priorizando a correção de injustiças supostamente individuais e não a justiça social:

“Não por acaso, os ‘direitos’ valorizados nesse contexto transformaram-se em entitlements, isto é, em regalias civis adquiridas e invioláveis, cujo parâmetro não é a justiça social, mas a correção de injustiças individuais cometidas por falhas legais.” — Potyara Pereira

Ela observa que essa inversão de valores foi consequência da globalização capitalista e das novas perspectivas neoliberais, que redefiniram as bases das políticas sociais:

“Essa inversão dos princípios, critérios e valores herdados de centenárias lutas democráticas decorreu da globalização do sistema capitalista que promoveu novas perspectivas, desafios, relações, processos e estruturas, validados por um ideário denominado neoliberal.” — Potyara Pereira

Ivanete Boschetti reconhece a importância dos espaços de Controle Social e a necessidade de fortalecimento de suas instâncias, bem como traz uma crítica a tendências de “burocratização” dos espaços de participação política, que se tornaram, segundo a entrevistada, repetitivos e corporativos, distantes do impacto real da política de assistência social:

“A participação política nos Conselhos e Conferências foi ganhando um contorno cada vez mais repetitivo e menos inovador, cada vez mais fragmentado e corporativo e menos voltado para o sentido, dimensão e impacto da política de assistência social na garantia de direitos e fortalecimento da seguridade social.” — Ivanete Boschetti

Ela destaca que o período dos Governos Temer e Bolsonaro resultou em uma grave incidência sobre os “avanços” conquistados até então, deixando um legado de precarização e desmantelamento dos direitos sociais:

“O interregno marcado pelos Governos Temer e Bolsonaro (2016-2022) foi de brutal destruição dos avanços até então construídos… devoraram a possibilidade histórica de construir a assistência social sob bases críticas.” — Ivanete Boschetti

Aldaiza Sposati reflete sobre a trajetória da Política Nacional de Assistência Social (PNAS), enfatizando que a política social deve ser uma afirmação de direitos sociais não reduzida ao combate à pobreza:

“Política social não é combate à pobreza; ela é afirmação de direito, uma garantia de direito… essa relação histórica do assistencialismo e da benemerência se mostrou muito forte… o volume de serviços implantados mediante contratos com organizações sociais é um ‘boom’ violento.” — Aldaiza Sposati

Ela também denuncia o impacto do desfinanciamento e a retirada de recursos da assistência social, o que enfraquece as unidades de referência, como os CRAS e CREAS:

“Há uma precarização da presença das unidades de referência… falta de pessoal para operar as unidades de CRAS ou CREAS… o que nós estamos falando é que… o governo foi sendo seguidamente um governo fiscal retirando os recursos da política de assistência social.” — Aldaiza Sposati

Embates Teóricos e Releituras

Nestes últimos 20 anos, sobretudo no contexto de consolidação da PNAS (2004) Ivanete Boschetti comenta sobre os debates teóricos metodológicos que adensam a produção, reflexão e efetivação da assistência social na realidade brasileira. Tal processo, de acordo com a entrevistada, desdobra-se no contexto do capitalismo periférico brasileiro, possibilitando o surgimento de diferentes visões sobre o que significa a ideia concentrada na utilização indiscriminada de conceitos e expressões como “defesa de direitos”. Neste sentido:

“[…] os debates teóricos em torno do significado da assistência social no capitalismo dependente e periférico brasileiro seguem com extrema relevância, e, historicamente, desnudaram as diferentes posições que, por vezes se camuflavam por baixo do véu genérico da ‘defesa do direito’.

Defender o direito à assistência social é sim fundamental. Mas qual direito? Com quais objetivos e perspectivas? Esses debates me parecem ter revelado essas perspectivas diferenciadas, que se fundamentam em perspectivas ético-políticas muitas vezes antagônicas.” — Ivanete Boschetti

Ela acrescenta que, em sua concepção, a assistência social deve ser uma política social que tenha o status de direito, mas que não se limite apenas a “afiançar” seguranças socioassistenciais:

“Assim, não concebo a assistência social como amplo sistema de proteção social, que deve ‘afiançar’ todas formas de (in)segurança social, e resolver ou minimizar as ‘vulnerabilidades’ sociais. Compreendo a assistência social como uma política social, que deve ter o status legal de direito social, compor o Estado Social como uma

mediação fundamental na satisfação das necessidades sociais, mas que não deve se conformar com a integração social e a ‘mitigação’ das ‘desproteções sociais’.” — Ivanete Boschetti

Potyara Pereira reflete sobre a ressignificação da assistência social sob o impacto de ideologias antissociais e conservadoras, que, segundo ela, enfraqueceram a redemocratização e impuseram obstáculos ao SUAS:

“Um ideário, aliás, que representa o amálgama dos aspectos mais antissociais dele mesmo e do neoconservadorismo, conformando a chamada nova direita, sob a qual a ressignificação da assistência social se processou enfrentando a seguinte questão: de uma redemocratização almejada, mas que resultou negociada com os próceres da ditadura, que teimaram em permanecer e influir na vida nacional, convertendo a assistência social constitucionalizada em alvo de preconceitos (confundida com o assistencialismo), vetos presidenciais, descumprimentos legais, adiamentos regulamentadores e freios oligárquicos até hoje presentes.” — Potyara Pereira

Aldaiza Sposati discute a necessidade de repensar a assistência social em termos de processos, não apenas de ‘metodologismos’, e considera as chamadas seguranças sociassistenciais a matéria-prima do SUAS, destacando inclusive o embate político que resultou, como visto nos documentos, na adesão formal e institucional da política de assistência social a tais formulações e pressupostos conceituais:

“Nós fomos nos afastando efetivamente das seguranças sociais postas para assistência social. Para mim, é uma fragilidade de ciência… nós temos que centrar em processo, não em método.” — Aldaiza Sposati

A autora aborda o conceito de vulnerabilidade social incorporado pela PNAS (2004) e SUAS, apresentando uma avaliação sobre a validade de sua utilização, chegando inclusive a indicar ou ainda, reconsiderar sua pertinência. Possivelmente, estamos diante da identificação de um processo de desdobramento e alteração conceitual, teórico e metodológico cuja substância possui o potencial de gerar impactos significativos na utilização e compreensão de conceitos, bem como no desenvolvimento e operacionalização dos processos de efetivação desta política na análise e intervenção na realidade brasileira. A entrevistada questiona tanto as interpretações que utilizam o conceito com a finalidade de atribuir as expressões de desigualdade social à responsabilidade individual, quanto reconhece que o uso indiscriminado do termo pode ter sido ineficaz para consolidar a compreensão de que a proteção social deve ser uma responsabilidade coletiva e estatal:

“Foi dada muita atenção e ainda é dada… a esse conceito de vulnerabilidades, e lá atrás, até posso ter usado. Eu verifiquei que a questão de vulnerabilidade era uma ferramenta para colocar a

responsabilidade no indivíduo. Ele, que é o vulnerável… então ele é que tem que enfrentar vulnerabilidade. Foi uma maneira, entendo isto, por isso trabalhei muito com o conceito de desproteção social… porque aí você tem realmente uma centralidade no entendimento de que desproteção não é algo interno do indivíduo, mas é algo de fora.” — Aldaiza Sposati.

História, Memória e Trajetória

Em 2023, o FONSEAS lança sua primeira Política Institucional de História, Memória e Trajetória, uma ação pioneira que faz parte do projeto FONSEAS +30. Com isso, presidentes e gestões futuras assumem o compromisso de preservar a memória institucional do fórum, consolidando uma trajetória de lutas e conquistas da assistência social no Brasil. Este último bloco da entrevista tem como objetivo abordar a importância da memória coletiva e da continuidade dessa política para as gerações futuras.

Não perca o último bloco desta entrevista especial, onde a História, Memória e Trajetória da Política Nacional de Assistência Social (PNAS) são reveladas em suas diversas dimensões na perspectiva das convidadas.

Neste segmento final, exploramos o contexto histórico e social em que a PNAS foi formulada, mas de uma maneira especial: convidamos as entrevistadas a compartilharem memórias vivenciadas ao longo de anos de atuação em defesa dos direitos sociais.

Ao longo de suas trajetórias, elas testemunharam fatos históricos, estabeleceram relações fundamentais e influenciaram processos que guiaram os rumos da política de assistência social. Foram conquistas árduas, desafios constantes e obstáculos críticos que fortaleceram a PNAS ao longo do tempo. Com relatos detalhados, os participantes revivem momentos históricos que marcaram suas vidas e desenvolveram para o fortalecimento dessa política, rendendo mulheragens a grandes militantes que lutam e aquelas que lutaram (in memoriam), em uma verdadeira lição sobre o valor da memória e da coletividade na construção do presente e do futuro.

FONSEAS +30:

Se pudesse enviar uma mensagem para o futuro, qual seria? O que você diria 2054 sobre o Brasil de hoje e o futuro da assistência social? Se você pudesse comunicar às próximas gerações algo sobre a realidade atual e a defesa do direito à assistência social no Brasil, o que diria? Para finalizar, descubra como uma cápsula do tempo, preparada para ser aberta em 2054, marcando simbolicamente essa trajetória, guardando mensagens para as futuras gerações. Esse projeto de memória e legado do FONSEAS convida os leitores a acessar o site e refletir sobre o futuro da PNAS, os passos que levaram até aqui e o que é necessário para que ela continue sendo uma política social transformadora.